20.11.09
6.11.09

UM DISCURSO TRANSPARENTE
Avanço através de um caos silencioso.
Nem um som nem uma sombra. É uma lenta descida.
É vazio o princípio do princípio. Solipsismo.
A possibilidade de nascer é o desejo que nasce.
Esquecer, viver. Tudo dizer em evidências brancas.
Com as armas mais puras, com a luz das minhas ervas
enuncio a fragrância de uma lâmpada. Comovo-me
com a água do poema. Crianças de cor solar
acenam em campos silenciosos. É suficiente estar aqui
mais além de todo o lugar, na superfície nua.
Habito agora o movimento do meio-dia.
Inesgotável um campo tão contínuo.
O sol fixou-se na corola do tempo, o espaço é puro.
O mar levanta-se do fundo até aos seus limites.
Um discurso flui completo e transparente.
António Ramos Rosa, in "Volante verde" moraes editores, 1986
4.11.09

SUICIDE—HOUSE
(...)
— Este corredor aonde leva?
— Ah, é a secção de asfixia. Queira entrar. A asfixia é ainda hoje um dos suicídios de maior actualidade. Temo-las para todos os gostos: fogareiro, gás de iluminação, vapores clorídricos, iodo… A menos que, sendo V. Ex.ª de seu natural artista, e um pouco poeta, não prefira envenenar-se com o aroma de flores desconhecidas. Há agora uma combinação de nenúfares de Java com flores de de Takeoka, que extingue, evocando rondas de deidades, todas nuas, maravilhosas de lascívia, as quais beijam na boca o — porque assim o chamemos — padecente. É imprevisto, hem? Ora sente-se o Snr. Duque neste fauteuil: vou-lhe fazer um principiozinho de experiência… Há-de gostar! Nada receie: a porta assim calafetada — como vê, todo o recinto tem uma couraça impermeável ao ar exterior — agora abre-se aqui esta torneira. Atenção! Desejava V. Ex.ª fazer, antes de partir, disposições testamentárias? Quer confiar ao fonógrafo a sua frase célebre? Se não trouxe frase, a casa fornece. Há em mimoso, em desesperado, em filosófico…
— Decididamente a asfixia maça-me. Que mais tem?
(…)
Fialho D'Almeida, in "Fialho Negro" & etc, 1981
em Novembro nas Livrarias…
Julio Cortázar [ A volta ao dia em 80 mundos ]trad. Alberto Simões
Lars Saabye Christensen [ O modelo ]trad. Mário Semião
Carmen Laforet [ A ilha e os demónios ]trad. Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu
www.cavalodeferro.com
30.10.09

Femina
The Legendary Tiger Man
TEMPO — Teatro Municipal de Portimão
31 de Outubro, 21h30
Grande Auditório | 1h15 min | M/12
10€ com descontos
29.10.09
27.10.09
leitura recomendada...
Em meados dos anos cinquenta, um grupo de jovens intelectuais americanos criou uma revista chamada The paris Review. Os seus autores dificilmente terão tido a percepção de que estavam a fazer nascer uma abordagem nova à literatura e à arte da escrita e de que, por outro lado, se constituiria a partir dali o mais extraordinário arquivo do fascínio que uma entrevista literária pode alcançar.
Entre a entrevista a E.M. Foster, a primeira deste volume, e a entrevista a Jack Kerouac, a última, decorrem quinze anos. O tempo que corresponde a uma mudança social drástica que a literatura soube espelhar. E que estas peças também revelam por inteiro: do aprumo formal de Foster à conversa com anfetaminas em casa de Kerouac.
Sem a Paris Review, teríamos as mesmas obras de Faulkner, Hemingway ou Borges – para citar apenas três dos dez autores que estão neste livro – mas não teríamos a mesma imagem que temos hoje de alguns dos escritores decisivos para a arte literária no século xx.
E.M. Foster, Graham Greene, William Faulkner, Trumam Capote, Ernest Hemingway, Lawrence Durrell, Boris Pasternak, Saul Bellow, Jorge Luis Borges, Jack Kerouac.
«Se eu não tivesse existido, alguém me teria escrito, a mim, a Hemingway, a Dostoiévski, a todos nós.»
William Faulkner
[ Entrevistas da Paris Review ] tinta da china, 2009
selecção e tradução de Carlos Vaz Marques
23.10.09
22.10.09
nova edição...

«No segundo decénio do nosso século, Franz Kafka criou uma forma notável do género fantástico em cujas páginas inesquecíveis o inacreditável assenta mais no comportamento das personagens do que nos factos. Assim, em O Processo (Der Prozess) o protagonista vê-se julgado e executado por um tribunal destituído de qualquer autoridade, cujo rigor aceita sem o mínimo protesto. Melville, mais de meio século antes, cria o estranho caso de O Escrivão Bartleby, que não só age de forma contrária a toda a lógica, como constrange os outros a tornarem-se seus desalentados cúmplices.»
Jorge Luis Borges
Herman Melville "Bartleby, o Escrivão" presença, 2009
trad. Maria João da Rocha Afonso
3.9.09
25.8.09
20.8.09
12.8.09
7.8.09
30.7.09

O teu nome é um vocábulo
de amor, uma carícia
que a língua desenvolve.
Não o posso pronunciar
em voz alta
quando não estou só. As
respirações alheias
corrompem: poderia
dissolver-se no vento,
fragmentar-se
perder
o seu mistério indecifrável,
desviar
a flecha do seu alvo.
Pronuncio-o eliminando
o som, das duas sílabas
que rolam no meu corpo,
abrem os poros e,
pelos olhos,
enviam a mensagem necessária
ao suporte de Outubro.
Tudo canta, rodeando o silêncio,
a ligeira brisa que perfuma
as letras
quando passas a porta
e o teu sorriso doce
avança para mim
A garganta abre-se,
as sílabas esvoaçam, transformam
o espaço em música,
os acordes da água:
o meu corpo é agora um piano
onde a alegria abre
a felicidade, as suas asas.
Egito Gonçalves, in "A ferida amável" campo das letras, 2000
ilust. Alberto Vargas
leitura recomendada...

De um encontro em Paris de Umberto Eco, um dos mais respeitados pensadores e romancistas da actualidade, com o cineasta e ensaísta Jean-Claude Carriére, nasce um extraordinário e contemporâneo diálogo em torno do papel dos livros no decurso da História.
Em «A Obsessão do Fogo», somos levados a percorrer mais de dois mil anos de histórias sobre livros, seguindo uma discussão erudita e divertida, culta e pessoal, filosófica e anedótica, curiosa e apetecível, plena de ironia, astúcia e referências culturais. Atravessamos tempos e lugares diversos; encontramos personalidades reais e personagens fictícias; deparamo-nos com elogio à estupidez, bem como com a análise da paixão pelo coleccionismo; e compreendemos a razão pela qual cada época gera as suas obras-primas. Para além disso, ficamos ainda a saber por que motivo “as galinhas levaram mais de um século para aprender a não atravessar a estrada” e porque é que “o nosso conhecimento do passado deve-se a cretinos, imbecis ou contraditores”.
Com a inteligência e o humor que lhes são reconhecidos, Eco e Carriere encetam uma viagem pela história dos livros e da literatura no geral, desde os papiros até à era digital da Internet e dos e-books. Um notável exercício de erudição de dois leitores apaixonados e coleccionadores de livros, uma espécie cada vez mais escassa numa era de obstinação pelo progresso tecnológico.
Umberto Eco e Jean-Claude Carrière "A Obsessão pelo Fogo" difel, 2009
trad. Joana Chaves
24.7.09

FLAUBERT
Excelentíssima madame, eis que primeiro vou descrever o seu esplendoroso vestido e logo a seguir, sim, a despirei com toda a ansiedade possível.
Belo programa, meu bom senhor. Mas essa primeira parte, não poderá saltar-se?
Excelentíssima madame, eu sou um escritor, não sou um fornicador.
Oh, meu bom senhor, que pena.
Gonçalo M. Tavares, in "Biblioteca" campo das letras, 2004
23.7.09

«EHEU!»
Aqui, junto ao mar latino,
digo a verdade:
Sinto em rocha, azeite e vinho,
a minha antiguidade.
Oh, que velho sou, Deus meu;
oh, que velho sou!…
Donde vem o meu canto?
E eu, para onde vou?
Conhecer-me a mim próprio
já me vai custando
muitos momentos de abismo
e o como e o quando…
E esta claridade latina,
de que me serviu
à entrada da mina
do eu e do não eu?…
Nefelibata contente,
julgo interpretar
as confidências do vento,
da terra e do mar
Umas vagas confidências
do ser e do não ser,
e fragmentos de consciências
de agora e de ontem.
Como no meio de um deserto
pus-me a clamar;
e vi o sol morto
e pus-me a chorar.
Rubén Darío, in "O mar na poesia da América Latina" assírio & alvim 1999
trad. José Agostinho Baptista
16.7.09

AS PESSOAS SENSÍVEIS
As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas
O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
Porque cheira a pobre cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra
«Ganharás o pão com o suor do teu rosto»
Assim nos foi imposto
E não:
«Com o suor dos outros ganharás o pão»
Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheiros de devoção e de proveito
Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem
Sophia de Mello Breyner Andresen, in "A perspectiva da morte: 20 (-2) Poetas portugueses do séc XX ] assírio & alvim, 2009
org. Manuel de Freitas
foto. Fernando Lemos
9.7.09

ENTRE TU E EU SEMPRE SE OPÕE
Entre tu e eu sempre se opõe,
por muito que tentemos ignorá-lo,
o antigo costume que dispõe:
«todo o estranho ardor há que acalmá-lo».
Entre tu e eu senpre se impõe
a ordem: «Aquele, aniquilá-lo!»
Assim o nosso amor já pressupõe
a fogueira que virá para apagá-lo.
As inomináveis escalas da injúria,
acosso sem fim, morte e olvido,
prisões, fogueiras, isso é amar-te.
Mas o terrível não é a tediosa fúria
que em cinzas nos tem convertido,
o terrível é saber se poderei achar-te.
Reinaldo Arenas, in "Poesia cubana contemporânea" antígona, 2009
trad. Jorge Melícias
8.7.09

ACERCA DA OBRA DE BURROUGHS
A receita será esta: carne da mais pura,
sem qualquer molho simbólico;
visões reais & prisões reais
tal como os vemos uma vez por outra.
Prisões e visões apresentadas
com rarissímas descrições
que correspondam exactamente
às de Alcatraz e de Rose.
Um almoço nu é para nós o normal;
comemos sanduíches da realidade.
Ao passo que as alegorias não passam de folhas de alface.
Não escondamos sob elas a loucura.
Allen Ginsberg, in "Uivo e outros poemas" dom quixote, 1973
trad. José Palla e Carmo

Hayao Miyazaki [ Ponyo on the Cliff by the Sea ] 2008
7.7.09

NADA
Arranquem a dentadura aos dicionários, tenho excesso de comprimidos na farmácia do cérebro, a passagem estreita da penumbra para o escuro esmaga-me mais do que o previsto, fim.
Se não tomo cuidado afogo-me, vou engolir o preservativo em vez do ansiolítico. Toma. Chega para cá o cinzeiro. Serei pássaro, ou gago?
Entre o esgoto e o caixão, amostras simpáticas da crise seguinte. Com floreados. Na melhor das hipóteses, não ser clonado.
Tens uma aspirina? Estou farto deste sabor, é do látex. Preferia a outra posição, mas teimas em ficar por baixo. Que fêmea da tua parte. Não. Eu disse uma aspirina. Claro que fazer amor não é lutar contra a dor de cabeça. É amar sem cabeça nem dor.
Olha, o escaravelho. Adora merda. Procria em merda. Transporta merda. É orgulhoso da merda que transporta. Eu também. Terei entrado na fase escaravelho, ou é apenas uma questão de idade?
Cada membro se move segundo uma regra, ou talvez estejam todos à mesma regra, eu estou preso no meu corpo e gostaria tanto que uma só vez fosse o meu corpo a estar preso em mim, mas não, há regras para tudo, até para o desejo de não haver regras.
Tenho a lucidez colada à retina, o desejo grudado na virilha, o arrependimento nas banhas, um estômago que fabrica fluido e digere pedaços de outros animais. E lamento não ser animal, apenas rudimentar, e conter tanto excedente de mim que raramente lá caibo.
Queria uma ternura de carne e osso, um beijo só de lábios, uma amor defendido por glóbulos brancos como num processo de infecções, queria que uma mulher me infectasse sem eu a ter procurado, queria uma explosão ensurdecedora, a meio do verão, que me cegasse e corroesse até à medula, até perder os ossos e a dor…
Mas nada acontece. Amo e não sou amado. Suo e não sou suado. Desejo e não sou desejado. E o meu corpo vegeta, porque nada acontece. Mordo, e a ninguém dói. Arranho, e nada se queixa. Sangro, e é sem sentir.
Quantos dedos terei nas mãos? Se soubesse, parava de escrever.
Manuel Cintra, in "Alçapão" & etc, 2009
regressos…

A voz pública tem a teimosia como um defeito; crismada perseverança torna-se uma virtude.
Por teimosia (ou perseverança) A Phala regressa.
Concebida em 1986 por Manuel Hermínio Monteiro, prosseguiu, nesse formato inicial, até 2003. De periodicidade irregularmente trimestal foi assegurando o interesse dos leitores. Instrumento, sem dúvida, da construção da editora que a Assírio & Alvim era e da sua evolução, foi bastante mais que isso. Procurou (e é grato pensar que conseguiu) ser observador atento e agente de divulgação do que a cultura portuguesa ia produzindo – em particular da poesia escrita em português ou em português vertida. A que na altura era escrita e publicada e aquela que tinha de ser recuperada e promovida.
A certa altura, este projecto, na forma que adquiriu, pareceu esgotar-se. À procura de um modelo mais ambicioso, menos rotineiro, A Phala sofreu uma transformação, na forma e no conteúdo. O primeiro número foi publicado, com o privilégio de, até agora, se ter revelado único.
Mudam-se os tempos… (que não as vontades) e teimosamente A Phala regressa, adaptada às novas formas de comunicação. Os objectivos são os mesmos. Deseja-se que a qualidade seja a mesma e mereça, de novo, a atenção de antigos leitores e a nova atenção de outros.
José Alberto Oliveira
http://phala.wordpress.com/
4.7.09
26.6.09
22.6.09
21.6.09
18.6.09
brevemente...

«Recorrendo a histórias pessoais e a reflexões literárias ricas em humor e erudição subtil, Alberto Manguel leva-nos a reflectir sobre as delícias e responsabilidades da leitura — uma viagem despoletada pela humanidade do autor, pela curiosidade insaciável e extraordinária abrangência da percepção do mundo.»
Alberto Manguel "No bosque do espelho" dom quixote, 2009
E. M. Cioran

O livro «Silogismos da Amargura» de E. M. Cioran acaba de ser editado pela Livraria Letra Livre numa tradução de Manuel de Freitas. Cioran, um dos mais interessantes, desafiadores e polémicos pensadores do século XX, até hoje só tinha duas obras editadas em Portugal, «História e Utopia» na Bertrand e «Tentação de Existir» na Editora Relógio D´Água.
17.6.09

GRITAR
Aqui a acção simplifica-se
Derrubei a paisagem inexplicável da mentira
Derrubei os gestos sem luz e os dias impotentes
Lancei por terra os propósitos lidos e ouvidos
Ponho-me a gritar
Todos falavam demasiado baixo falavam e escreviam
Demasiado baixo
Fiz retroceder os limites do grito
A acção simplifica-se
Porque eu arrebato à morte essa visão da vida
Que lhes destinava um lugar perante mim
Com um grito
Tantas coisas desapareceram
Que nunca mais voltará a desaparecer
Nada do que merece viver
Estou perfeitamente seguro agora que o Verão
Canta debaixo das portas frias
Sob armaduras opostas
Ardem no meu coração as estações
As estações dos homens os seus astros
Trémulos de tão semelhantes serem
E o meu grito nu sobe um degrau
Da escadaria imensa da alegria
E esse fogo nu que pesa
Torna a minha força suave e dura
Eis aqui a amadurecer um fruto
Ardendo de frio orvalhado de suor
Eis aqui o lugar generoso
Onde só dormem os que sonham
O tempo está bom gritemos com mais força
Para que os sonhadores durmam melhor
Envoltos em palavras
Que põem o bom tempo nos meus olhos
Estou seguro de que a todo o momento
Filha e avó dos meus amores
Da minha esperança
A felicidade jorra do meu grito
Para a mais alta busca
Um grito de que o meu seja o eco.
Paul Éluard, in "Algumas das palavras" dom quixote, 1977
trad. António Ramos Rosa e Luisa Neto Jorge

«Tão pequena e tão grande! Aqui, homem finalmente digno do teu nome, é que estás como eu quero, aqui te encontras à escala dos teus desejos. Este lugar, não receies chegar bem perto o teu rosto e já a tua língua, tagarela, não pode refrear-se, este lugar de delícia e sombra, este pátio ardente nos seus limites de nácar, a bela imagem do pessimismo. Ó greta, húmida e macia greta, vertiginosa.
Nesta humana esteira é que os navios finalmente perdidos, com as máquinas para todo o sempre inúteis, de regresso à infância das viagens sobem num mastro de sorte as velas do desespero. Entre pintelhos frisados como a carne é bela: sob este bordado bem dividido pelo machado do amor surge amorosamente uma pele pura, espumosa e láctea. E as formosas pregas que levam aos grandes lábios entreabrem. Lábios tão belos, a vossa boca parece a do rosto debruçado num adormecido, não direi transversa e paralela a todas as bocas do mundo, mas fina e longa, crucial nos lábios palradores que a conservam em silêncio, prestes a um beijo prolongado pontual, lábios adoráveis que soubestes dar aos beijos um novo e terrível sentido para todo o sempre depravado.
Como eu gosto de uma cona que ressalta.
Como se aproxima dos nossos olhos, ela, como incha atraente e cheia com a sua cabeleira de onde sai, tão parecido com as três deusas nuas sobre as árvores do Monte Ida, o brilho incomparável do ventre e das duas pernas. Toquem só: que melhor emprego para as vossas mãos. Toquem só neste sorriso de volúpia, desenhem com os dedos estes hiatus de encanto. Ali: que as vossas palmas imóveis, as falanges rendidas e esta curva avançada se reunam no ponto mais duro, o melhor, que faz elevar esta ogiva santa até ao cume, ó minha igreja. E não se mexam agora, assim, e com a carícia de dois polegares aproveitem agora a boa-vontade desta criança cansada, entrem um pouco, com a carícia dos vossos dois polegares acariciadores, os dois polegares. E agora, palácio rosado te saúdo, estojo polido, alcova meio desmanchada pela alegria grave do amor, vulva um só instante surgida em toda a sua opulência. Debaixo do cetim repuxado do nascente, a cor do verão quando fechamos os olhos.»
Louis Aragon, in "A cona de Irène" & etc, 1983
trad. Aníbal Fernandes
leitura recomendada...

«Este é um livro de histórias: de uma menina, aluna num convento de freiras, que deu consigo a mudar de sexo na puberdade; de crianças que, trazendo-nos à memória os ciclopes de Homero, nascem com um único olho a meio da testa; de uma aldeia croata de anões de idades invulgarmente avançadas; de uma família hirsuta que foi conservada na corte do reino da Birmânia durante quatro gerações (e inspirou a Darwin uma das suas mais certeiras visões acerca da hereditariedade); e do povo dos pés de avestruz: os Wadoma, do vale do Zambeze.»
Em Mutantes, Armand Marie Leroi brinda-nos com uma brilhante narrativa da nossa gramática genética, falando-nos das pessoas cujos corpos no-la revelaram. Passando aparentemente sem esforço do mito para a biologia molecular, o objecto desta obra elegante e esclarecedora somos todos nós.
Armand Marie Leroi "Mutantes" gradiva, 2009
trad. Jorge Lima
15.6.09

Gosto de andar por aí.
Desço as escadas a correr,
salto os degraus dois a dois
e num instante entro na rua.
Na rua não há tecto. Sopra o vento.
Às vezes chove, às vezes faz sol.
Na rua não há paredes. Há estradas, muros e lugares,
mas o mundo é enorme (acho que não tem fim).
"andar por ai" planeta tangerina, 2009
texto: Isabel Minhós Martins
ilustração: Madalena Matoso

«Não procurei olhar para ela durante a viagem; com os olhos postos na luz que oscilava elástica no caminho de terra, não precisei de a olhar para lhe ver a cara, para em convencer de que a cara ia estar, até à morte, em dias luminosos e povoados, em noites semelhantes à que atravessámos, enfrentando a indubitável, fátua, ilusória aproximação dos homens; com o pequeno nariz que revelava, quase em qualquer posição da cabeça, as suas covas sinuosas, inocentes; sem convexidade, como simples esboços de olhos feitos com um lápis pardo num papel pardo de cor mais suave. Mas não era somente os homens que enfrentava, claro, os que iriam chegar depois deste de quem nos aproximávamos, e que ela faria certamente felizes sem lhes mentir, sem ter que forçar a sua bondade ou compreensão e que se separariam dela já condenados a confundir sempre o amor com a recordação da cara tranquila, das pontas de sorriso que ali estavam sem motivo nascido no pensamento ou no coração, o sorriso que apenas se formava para expressar a placidez orgânica de estar viva, coincidindo com a vida. Não era só os homens que enfrentava essa cara redonda e sem perfumes que não fazia por resistir aos safanões do carro, que se deixava balouçar, assentindo, com um cândido, obsceno costume de assentir; porque os homens apenas lhe podiam servir enquanto símbolos, marcos, pontos de referência para eventualmente pôr na vida uma ordem artificiosa e serviçal. Mas a cara também tinha sido feita para enfrentar o que os homens representavam e diferençavam; interminavelmente ansiosa, incapaz de surpresas verdadeiras, transformando logo tudo em memória, em remota experiência. Imaginei a cara, excitada, alerta, faminta, assimilando, enquanto ela afastava os joelhos para cada amor definitivo e para parir; imaginei a expressão recôndita dos seus olhos planos ante a velhice e agonia.»
Juan Carlos Onetti, in "os adeuses" relógio d'água, 2009
trad. Hélia Correia
12.6.09
10.6.09
8.6.09
5.6.09
hoje é dia de…

“On the Road” é um espectáculo-viagem baseado no livro homónimo de Jack Kerouac, criado em 2007 por Tó Trips e Tiago Gomes aquando do 50º aniversário do seu lançamento.
Este espectáculo foi apresentado na exposição “Remembering Jack Kerouac”, no espaço Av. da Liberdade 211, de onde partiu o convite para esta união em torno da Bíblia da Beat Generation, influência para viajantes de todos os tempos.
É de facto a viagem, uma estrada perdida e infinita para onde os dois performers e o vídeo remetem o espectador para a route 66, América de todos os sonhos que aqui são todas as estradas do mundo: vias rápidas, estradas secundárias, deserto, cidades perdidas na noite e becos sem saída.
Não é bem um concerto, nem tão pouco declamação de um texto, antes uma performance de música e leitura, enquadrada por uma projecção vídeo a cargo de Raquel Castro.
On The Road
Tó Trips e Tiago Gomes
5 de Junho, 22h00
Café-Concerto
Duração: 60m
Entrada Gratuita
TEMPO [Teatro Municipal de Portimão]
3.6.09

«a corrida quieta da leitura» (Maria Filomena Molder)
Cada livro dá uma velocidade de leitura; como um carro; um livro deveria ter na capa ou na contracapa indicações de velocidade máxima e mínima de leitura: não ler a menos do que vinte páginas por hora, não ler a mais do que quarenta páginas por hora. ( ideia a desenvolver)
Claro que a velocidade engana: livros imbecis, mas também livros perfeitos, podem ser lidos à mesma velocidade, suponhamos: cem páginas por hora. Não é tanto a velocidade potencial de leitura de um livro que dá a sua qualidade, é mais o local aonde se chega com essa velocidade.
E que importa estar num carro que vai a um grande velocidade, se ele chega a um sítio que eu não desejo (rapidamente, é certo)?
E que importa estar num carro que vai a uma velocidade para que os seus passageiros possam apreciar a paisagem, se a paisagem não é relevante?
Contemplar quando estamos em viagem se a coisa contemplada for interessante.
Claro, dirão, ler é bom para os sentimentos, para os abanar: por favor, não introduza dados quantitativos no prazer da leitura.
Porém, não esquecer: o que fez cada um com o que leu à velocidade que leu? Paisagens e sítios de chegada. Contabilidade económica da leitura.
(Não podemos ler tudo. Somos mortais, meu caro.)
Gonçalo M. Tavares, in "Breves notas sobre as ligações" relógio d'água, 2009
ilust. Gérard Dubois
31.5.09
28.5.09

DEZ MIL PELES-VERMELHAS
Para eles
o tempo existe
em estado nulo
Felizes de tanta felicidade
Dez mil peles-vermelhas agacham-se
na pradaria
e preludiam à sublime dança
Engolem os dias
despenteiam as noites
Dez mil peles vermelhas e lúcidas
preparam-se para fazer rir a chuva
as terras engelhadas por desejo e sede
fazendo os tambores soarem de som cheio
Som
cheio
Dez mil peles vermelhas apaixonadas
preparam-se para misturar o seu sangue irrequieto
ao leite sombrio das mulheres tão calmas
ao mel risonho dos seus lindos filhos
Filhos do século
onde estão os vossos tridentes
Dez mil peles vermelhas
pálidas mas sólidas
abandonam a família para morrer à parte
Dez mil peles-vermelhas
de sangue em fogo
a sua vida ainda lá está
a desencantar demónios
Max Ernst, in "identidade instantânea" & etc, 1983
trad. Aníbal Fernandes
21.5.09
20.5.09
15.5.09
Nas Livrarias…

«Do alto do muro a vista era ambivalente: de um lado, esperava-o um campo aceso de lajes – Aqui jaz. Ali jaz. – Um campo de ossos, fotografias e epitáfios semeados por mensagens de despedida ou saudade e ardentes chamas trémulas. Enquanto do outro se apresentava a cidade: fantasmagoricamente iluminada pelas luzes indecisas dos candeeiros; guardada pelos cães vadios e as gruas de aço. Onde, dentro das casas e edifícios, supostamente deitados sobre colchões e lençóis pestilentos, os peitos dos homens e das mulheres horizontais, cravados de ódios e maledicências, levantavam-se e baixavam-se ao ritmo de inspirações e expirações mais ou menos inconscientes.
Eles respiram, pensou o amputado.»
Sandro William Junqueira "O caderno do Algoz" caminho, 2009
13.5.09
12.5.09
6.5.09
23.4.09
21.4.09

ARGUMENTO
Como viver sem desconhecido diante de nós?
os homens de hoje em dia querem que o poema seja à imagem das suas vidas, com tão poucas considerações, tão pouco espaço, consumidas de intolerância.
Porque já não lhes é permitido agir supremamente, nessa preocupação fatal com a auto-destruição através dos seus semelhantes, porque a sua riqueza inerte os refreia e os amarra, os homens de hoje em dia, debilitado o instinto, perde, muito embora se conservem vivos, a própria poeira do seu nome nascido do chamamento do porvir e da angústia da retenção, o poema, elevando-se do seu poço de lama e de estrelas, testemunhará, quase silenciosamente, que nada havia nele que não existisse verdadeiramente noutro sítio, neste rebelde e solitário mundo de contradições.
René Char, in "Furor e mistério" relógio d'água, 2000
trad. Margarida Vale de Gato

MEMÓRIA, A INIMIGA
Não voltarei a colar os pedaços da memória.
O céu estalado dos puzzles não ressuscita a magia.
Aquilo de que me lembrei, só atraves de novas e suscitadas saudades me deu alguma vez impressão de vida. E assim, mais tristes e mais infelizes entre todos os homens me pareciam os que nasceram dotados com as melhores memórias. Não triunfam sobre a morte mas, cada transubstanciação que tentam, em vez de de lhes prolongar o passado mata-lhes o presente com a mais inexorável das fatalidades. Vítimas da sua insuficiência, prosseguem condenados a nada ver do novo espectáculo que desprezam, fiados numa dócil esperança de recomeços que ninguém, de resto, saberia conseguir que os satisfizessem.
Quanto a mim, tudo o que aprendi, tudo o que vi só contribuirá para o meu tédio e o meu nojo se um novo estado qualquer me não causar o esquecimento dos pormenores anteriores. Visto isso, como baptizar de inimiga uma memória obstinada a recordar?
René Crevel, in "O meu corpo e eu" hiena, 1995
trad. Luís Matos Costa

LER ROMANCES
Nem todos os livros se lêem do mesmo modo. Os romances por exemplo, existem para serem devorados. Lê-los é uma volúpia da assimilação. Não se trata de empatia. O leitor não se coloca no lugar do herói, mas assimila os que lhe acontece. O relato vivo disso é a forma de apresentação apetitosa que traz à mesa um prato suculento. É certo que também há alimentos crus da experiência — tal como há alimentos crus para o estômago—, concretamente: as experiências que nos passam pela própria pele. Mas a arte do romance, como a arte da cozinha, só começa para lá dos alimentos crus. E quantas substancias suculentas não existem que são intragáveis em estado cru! E quantas experiências que são aconselháveis em estado de leitura, mas não de vivência! Fazem proveito a muito boa gente que morreria se passasse por elas in natura. Em suma: se existe uma musa do romance — a décima —, o seu emblema é o da fada da cozinha. Tira o mundo do seu estado cru, para lhe preparar pratos comestíveis e extrair dele o seu gosto. Se tiver de ser, pode ler-se o jornal à refeição. Mas nunca um romance. São tarefas necessárias, mas que entram em conflito.
Walter Benjamin, in "Imagens de pensamento" assírio & alvim, 2004
trad. João Barrento
15.4.09

NÃO ENTRES DOCILMENTE NESSA NOITE SERENA
Não entreis docilmente nessa noite serena,
porque a velhice deveria arder e delirar no termo do dia;
odeia, odeia a luz que começa a morrer.
No fim, ainda que os sábios aceitem as trevas,
porque se esgotou o raio nas suas palavras, eles
não entram docilmente nessa noite serena.
Homens bons que clamaram, ao passar a última onda, como podia
o brilho das suas frágeis acções ter dançado na baia verde,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.
E os loucos que colheram e cantaram o voo do sol
e aprenderam, muito tarde, como o feriram no seu caminho,
não entram docilmente nessa noite serena.
Junto da morte, homens graves que vedes com um olhar que cega
quanto os olhos cegos fulgiriam como meteoros e seriam alegres,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.
E de longe, meu pai, peço-te que nessa altura sombria
venhas beijar ou amaldiçoar-me com as tuas cruéis lágrimas.
Não entres docilmente nessa noite serena.
Odeia, odeia luz que começa a morrer.
Dylan Thomas, in "A mão ao assinar este papel" assírio & alvim, 1998
trad. Fernando Guimarães
14.4.09
leitura recomendada...

HISTÓRIA UNIVERSAL DA DESTRUIÇÃO DOS LIVROS é um relato lúcido e devastador do crime perpetuado contra a memória da humanidade que descansa nos livros. Desde a antiguidade grega até ao mundo islâmico, desde os códices pré-hispânicos perdidos no fogo durante a época colonial ou a destruição nazi de milhares de livros judaicos até às situações actuais de censura em países como Cuba e China.
Outro cenário: Bagdad jaz em ruínas, as chamas devoraram as suas antigas bibliotecas, os seus museus foram reduzidos a escombros, os saques sucedem-se dia e noite perante a indiferença dos soldados que foram destacados para guardar essa cidade milenária. Perante esta paisagem desoladora, o autor interroga-se sobre a razão de ser deste empenho em assassinar a memória escrita, justamente no lugar onde surgiu pela primeira vez o livro como objecto e ferramenta. Para encontrar uma resposta, Fernando Báez recorre a diversos momentos da história, cuja desafortunada pedra de toque tem sido a destruição dos livros, sempre em nome de diversas consignas: raciais, sexuais, culturais ou políticas.
Fernando Báez "História universal da destruição dos livros" texto, 2009
trad. Maria da Luz Veloso
3.4.09

AH, DIZ-ME A VERDADE ACERCA DO AMOR
Há quem diga que o amor é um rapazinho,
E quem diga que ele é um pássaro;
Há quem diga que faz o mundo girar,
E quem diga que é um absurdo,
E quando perguntei ao meu vizinho,
Que tinha ar de quem sabia,
A sua mulher zangou-se mesmo muito,
E disse que isso não servia para nada.
Será parecido com uns pijamas,
Ou com o presunto num hotel de abstinência?
O seu odor faz lembrar o dos lamas,
Ou tem um cheiro agradável?
É áspero ao tacto como uma sebe espinhosa
Ou é fofo como um edredão de penas?
É cortante ou muito polido nos seus bordos?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.
Os nossos livros de história fazem-lhe referências
Em curtas notas crípticas,
É um assunto de conversa muito vulgar
Nos transatlânticos;
Descobri que o assunto era mencionado
Em relatos de suicidas,
E até o vi escrevinhado
Nas costas dos guias ferroviários.
Uiva como um cão de Alsácia esfomeado,
Ou ribomba como uma banda militar?
Poderá alguém fazer uma imitação perfeita
Com um serrote ou um Steinway de concerto?
O seu canto é estrondoso nas festas?
Ou gosta apenas de música clássica?
Interrompe-se quando queremos estar sossegados?
Ah! diz-me a verdade acerca do amor.
Espreitei a casa de verão,
E não estava lá,
Tentei o Tamisa em Maidenhead
E o ar tonificante de Brighton,
Não sei o que cantava o melro,
Ou o que a tulipa dizia;
Mas não estava na capoeira,
Nem debaixo da cama.
Fará esgares extraordinários?
Enjoa sempre num baloiço?
Passa todo o seu tempo nas corridas?
Ou a tocar violino em pedaços de cordel?
Tem ideias próprias sobre o dinheiro?
Pensa ser o patriotismo suficiente?
As suas histórias são vulgares mas divertidas?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.
Chega sem avisar no instante
Em que meto o dedo no nariz?
Virá bater-me à porta de manhã,
Ou pisar-me os pés no autocarro?
Virá como uma súbita mudança de tempo?
O seu acolhimento será rude ou delicado?
Virá alterar toda a minha vida?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.
W.H. Auden, in "Diz-me a verdade acerca do amor" relógio d'água, 1994
trad. Maria de Lourdes Guimarães
fotografia de Cecil Beaton
2.4.09
31.3.09

De noite, já tarde, fui procurar Nick Cave na cidade, mas o que me veio parar às mãos foi qualquer coisa diferente: um pescador da costa oriental, vermelhusco e brilhante de gordura. Despi-lhe as roupas, falei-lhe longamente do amor, das estrelas e da lei da gravidade da Terra. Ele ouviu, aguçando as grandes orelhas e sorrindo ingenuamente, com um ar idiota. Quis muito e bem depressa, e eu pus na mesa o melhor que tinha para oferecer. De manhã balbuciava como um bebé acabado de mamar e queria mais. Fiz como ele quis. Sorri e sussurrei-lhe ao ouvido, ofereci-lhe tudo numa bandeja de ouro. Deixei-o penetrar-me, ao mesmo tempo que que lhe apertava o pescoço com toda a minha força. Um gargarejo, e o seu espírito deslizou-lhe para fora do corpo balofo. Levantei-me, vesti-me, encomendei o pequeno-almoço e saí.
Rosa Liksom, in "Os paraísos do caminho vazio e outros contos" relógio d'água, 1994
trad. Merja Sinikka Nousia e Marta Duarte Daniel Dias
30.3.09
brevemente...

«Escrito na Cidade do México em 1955 (a primeira parte) e em 1956 (a segunda), contando a história da sua paixão por uma toxicodependente (de seu verdadeiro nome Esperanza Villanueva), Tristessa era (na palavras do próprio) a obra preferida de Kerouac, ainda que ele estivesse bem ciente da predilecção dos seus fãs por Pela Estrada Fora. O texto foi manuscrito (e não escrito directamente à máquina, como Kerouac habitualmente fazia) em caderninhos de bolso que ele trazia sempre consigo, entremeado de desenhos e esboços, composto de jactos nas ruas e praças, nos bares e tabernas de má nota, mas, ainda assim, «imaculado, sem emendas», orgulhava-se ele de afirmar.»
Jack Kerouac [ Tristessa ] relógio d'água, 2009
22.3.09

DE UM ANÓNIMO, PESCADOR À LINHA
Quando olho Lisboa, da Trafaria,
Ao entardecer com os navios parados,
Dá-me um fanico na fotografia
Que dela tenho sob as sardinheiras
Da minha infância na Graça.
Fico assim parado, no rodapé da alma,
Como se lesse, ao mesmo tempo dois poetas,
E fico na dúvida se estou a olhar Lisboa
ou se ela, como eu, lê selectas.
(É o vinho que faz ver dois, é certo,
mais o bagaço na taberna da Maluca.
Vai pelo mundo um desconcerto
Que co a lírica debaixo do braço
Vou a correr para a baiuca).
Nunes da Rocha, in "Cancioneiro da Trafaria" & etc, 2009

JACQUES PRÉVERT
A mulher pode seduzir de duas formas: ou olhando os olhos do outro, ou olhando os lábios do outro. Se olhar os olhos a sedução é lenta, se olhar os lábios a sedução é rápida. Entre o olhar nos olhos, e a nudez, a distância temporal é maior.
Entre a nudez mútua e a fornicação (também mútua) pode ocorrer um intervalo de seis dias, se as duas pessoas em questão forem envergonhadas e hesitantes. Seis dias são suficientes para dar doze voltas ao mundo, porém, por vezes, um órgão demora esse tempo a chegar ao destino amoroso.
O mundo só não é desequilibrado e surpreendente nos gráficos da administração central.
Gonçalo M. Tavares, n "Biblioteca" campo das letras, 2004

II. COISAS RARAS
Entre as coisas que são raras, acrescentaria um livro bem corrigido.
Um Homem que esquece o olhar dos outros homens.
Uma pinça de depilar que depila.
Persianas nas janelas que não deixem passa a luz do dia.
VII. DIFERENTES ESPÉCIES DE MULHERES
As mulheres que acham tudo admirável, fabuloso, fantástico são detestáveis.
As mulheres que acham tudo mesquinho, medíocre, estúpido, nulo, sem gosto são detestáveis.
XIV. COISAS QUE ENVERGONHAM
Entrar no quarto do marido, na ala ocidental do palácio, e vê-lo nu a quatro patas, na cama, rodeado dos seus pequenos lacaios, todos numa azáfama a aplicar-lhe pomadas, água fria, panos, unguentos — com o braseiro aceso em pleno verão — e o pequeno massagista a depilar-lhe o cu e o púbis à excepção do escroto.
XX. NOITES DE FOME
Então as noites sem pelo menos três orgasmos parecia-nos noites de fome.
XXXII. DESCOBERTA
Não gosto de fazer amor durante a primeira sesta.
CLVI. OS ORIFÍCIOS DO CORPO
Parece-me que os nove orifícios do meu corpo se abrem inutilmente. Devem sem dúvida ter começado a tomar consciência de que estão abertos para o vazio. Os meus nove orifícios começaram a dialogar com o silêncio da morte.
Pascal Quignard, in "As tábuas de buxo de Apronenia Avitia" cotovia, 1999
trad. Ernesto Sampaio
21.3.09
18.3.09

«O final dos finais, meus senhores: o melhor é não fazer nada! O melhor é uma inércia consciente! Por isso, viva o subterrâneo! Embora eu tenha dito que sofro de uma inveja biliosa pelo homem normal, não gostaria de ser ele nas condições em que o vejo (embora não deixe de o invejar. Não e não, aconteça o que acontecer, o subterrâneo é mais vantajoso!). Lá, pelo menos, pode-se… Eh, lá estou eu outra vez a mentir! Minto porque sei, como dois mais dois serem quatro, que não é o subterrâneo que é melhor, mas qualquer outra coisa, completamente outra, a que eu aspiro mas nunca mais encontro! O subterrâneo para o raio que o parta!»
Fiódor Dostoiévski, in "Cadernos do subterrâneo" assírio & alvim, 2000
trad. Nina Guerra e Filipe Guerra
pintura de Wassilij Grigorjewitsch Perow, 1872















































































